Memórias
Brincadeiras de antigamente: do quente ou frio ao telefone sem fio
Antes das telas, bastavam uma calçada, um pedaço de giz e a turma da rua. Muitas brincadeiras de antigamente continuam funcionando hoje, até dentro de apartamento. Algumas nem pedem que alguém se levante do sofá.
Quando a rua era o pátio
Quem foi criança nos anos 50, 60 ou 70 lembra bem da hora mágica: o fim da tarde, a lição já feita, a rua cheia de crianças até alguém aparecer na janela chamando para dentro. Não havia brinquedo caro. Havia giz, uma bola murcha, um pião com a ponta gasta, uma corda emprestada do varal.
E havia regras. Ninguém as escrevia, mas todo mundo sabia de cor, porque passavam dos mais velhos para os mais novos, de quintal em quintal. É por isso que as brincadeiras de antigamente são tão parecidas no Brasil e em Portugal, só que com outros nomes: a amarelinha brasileira é o jogo da macaca português, a bolinha de gude é o berlinde, o esconde-esconde vira as escondidas.
As de correr e pular
Amarelinha. Um desenho no chão, uma pedrinha e um pé só. Ensina equilíbrio e paciência, porque pisar na linha é perder a vez.
Pião. Barbante enrolado, um puxão firme e a arte de fazê-lo dormir no chão. Os mais habilidosos o levantavam girando na palma da mão.
Peteca. Uma base pesada, um penacho no alto e a mão como raquete. Herança indígena que virou esporte, e que ainda aparece nas praias e nos parques.
Pular corda, pega-pega, esconde-esconde. Nada de material, ou quase. Bastava gente.
As de roda e de mão
Passa anel. Um anel escondido entre as mãos postas, passando de criança em criança, e no fim a pergunta: “com quem está o anel?”. Treina o olhar e a cara de paisagem.
Batatinha frita, 1, 2, 3. Quem conta vira de costas, os outros avançam, e quem for pego se mexendo volta ao começo. Em Portugal, a mesma brincadeira se chama “um, dois, três, macaquinho do chinês”.
Ciranda e cantigas de roda. A brincadeira de quem ainda não sabia regra nenhuma, só a letra da música.
As de palavra
Um grupo inteiro de brincadeiras de antigamente não pedia nem espaço. Eram as de palavra, boas para dias de chuva, para a varanda e para a fila do posto de saúde.
Telefone sem fio. Uma frase dita no ouvido do primeiro, que passa para o segundo, e assim até o último dizer em voz alta o que ouviu. A graça está no estrago.
O que é, o que é? As adivinhas de sempre: “o que é, o que é, tem dentes mas não morde?”. A resposta é o pente, e quem já sabia fingia que não.
Quente ou frio. Alguém escondia um objeto e guiava os outros só com a temperatura: “tá frio… tá morno… tá quente!”. Quem inventou, ninguém sabe ao certo. Como quase todas as brincadeiras de rua, ela não tem autor: tem gerações.
O quente ou frio tem uma variação que muitas famílias faziam sem dar nome: em vez de esconder um objeto, esconder uma palavra. Uma pessoa pensa, as outras dão palpites, e a resposta é sempre uma temperatura. Uma rodada com a palavra peteca poderia ser assim (os números são só um exemplo):
- computador2 °CGelado: tempo errado, mundo errado
- quintal36 °CMorno: o lugar certo
- brinquedo55 °CQuentinho: o tipo de coisa
- bola62 °CQuentinho: também se joga para o alto
- pena79 °CQuente: o penacho no alto dela
- petecaEncontrou!
Quem chegou a pena pensou no formato da coisa, não no nome. É assim que essa brincadeira funciona: o sentido guia, as letras não importam.
Por que elas duraram tanto
Não pediam nada. Giz, pedrinha, barbante. Às vezes nem isso.
As regras cabiam numa frase. Qualquer criança nova na rua entendia em um minuto.
Todo mundo podia entrar. O caçula, a prima de visita, o avô sentado no banquinho da calçada. Cada brincadeira tinha um papel para quem corria menos.
Elas se adaptavam. Sem quintal, a amarelinha ia para o corredor. Sem turma, o pião rodava sozinho. Sem rua, o quente ou frio cabia na sala.
As que funcionam dentro de casa, hoje
Para avós que recebem os netos num apartamento, várias dessas brincadeiras continuam perfeitas:
Telefone sem fio na mesa do almoço, com frases cada vez mais difíceis.
O que é, o que é no carro ou na fila, com as adivinhas que os avós sabem e os netos nunca ouviram.
Passa anel no sofá, com três ou quatro pessoas.
Quente ou frio com um doce escondido na sala, para os pequenos, ou com uma palavra pensada, para os maiores. O passo a passo para crianças está em brincadeira quente ou frio.
Adedanha, com papel e lápis, para quem já sabe escrever. As regras e trinta temas estão em adedanha ou Stop.
Do giz ao telefone
Muitas brincadeiras de antigamente ganharam versão nova. A do quente ou frio com palavras, por exemplo, tem uma versão online, o Warmer Warmer: uma palavra secreta por dia, a mesma para todo mundo, e a cada palpite o jogo diz se esquentou ou esfriou. É grátis, roda no navegador e nem pede para criar conta.
Talvez seja esse o melhor caminho entre gerações: os avós ensinam a amarelinha e o passa anel, os netos mostram onde está o jogo da palavra do dia, e cada um procura a mesma palavra no seu telefone. Depois, na visita de domingo, compara-se quem precisou de menos palpites. As regras completas da versão com palavras estão no tá quente, tá frio com palavras.
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- Jogos como Contexto Um jogo como o Contexto, no quente ou frio